EXTREMA ESQUERDA E PORTE NA POLÍCIA – UMA POLÉMICA

2013-10-13https://i1.wp.com/www.oprimeirodejaneiro.pt/up/artigos-bin_imagem_1_jpg_0235223001150746985-353.jpg

A recente publicação do livro Conquistadores de Almas de autoria de Pinto de Sá gerou uma discussão que se tem centrado no Público, embora também se tenha verificado nos blogues (numa ocasião posterior farei uma listagem do debate nos blogues). Aqui se reproduzem algumas peças dessa polémica, as que não estão acessíveis em linha.

1- José Manuel Fernandes – A abjecção sob a forma de livro de memórias (Público, 13 de Agosto de 2006)

2 – Editora “Guerra e Paz” – Público ataca Conquistadores de Almas (16 de Agosto de 2006)

3- Pinto de Sá – Resposta a José Manuel Fernandes sobre a abjecção em forma de livro (Público , 20 de Agosto de 2006)

4 – José Manuel Fernandes – Os equí­vocos de Pinto de Sá, ou como assumir o passado não implica legitimar o erro (Público, 20 de Agosto de 2006)

5 – Joffre Justino – O “caso” Pinto de Sá

6 – Rui Bebiano – Regresso ao Passado, Terceira Noite

7 – Pinto de Sá – Resposta aos ataques de José Manuel Fernandes a propósito do livro “Conquistadores de Almas”, Conquistadores de Almas

1- José Manuel Fernandes – A abjecção sob a forma de livro de memórias (Público, 13 de Agosto de 2006)

O autor foi preso pela polícia política, a PIDE, fraquejou e, depois, passou-se para o lado dos torturadores. Agora veste o papel de vítima para mostrar que trair era o mais normal

José Luis Pinto de Sá é hoje professor no Instituto Superior Técnico (IST) e resolveu ajustar contas com o mundo da pior forma possível: fazendo-se de vítima num lamentável ensaio autobiográfico.
Primeiro: quem foi Pinto de Sá? Criado em Angola num ambiente pequeno-burguês, desembarcou em Lisboa no final dos anos 60, aí sendo engolido pela crise estudantil. Criou relações com os dirigentes associativos do IST de então e acabou por aderir a uma das mais microscópicas e sectárias organizações da extrema-esquerda estudantil, os CCR-ML. Tímido, introvertido e sem dotes de orador, acabaria por se ocupar do trabalho de bastidores até ser detectado e preso pela polícia política, a PIDE/DGS. Muitos estudantes esquerdistas da época conheceram a mesma sorte, mas ao contrário do que escreve Pinto de Sá nem todos cederam durante os interrogatórios e, sobretudo, poucos ou mesmo nenhum acrescentou à cedência perante a tortura a colaboração com a polícia política.
Segundo: por que motivo alguém com este passado pouco honroso decide escrever as suas memórias? Haveria bons motivos, como um ajuste de contas consigo mesmo ou a exposição pública das fraquezas humanas que permitem tais comportamentos. Não foi por esse caminho que entendeu seguir Pinto de Sá. O seu livro é sim um ajuste de contas com todos os que o desprezaram (como se despreza os que vendem a alma, não os que conquistam almas) e, depois, abandonaram os desvarios da juventude e ocupam lugares importantes no Portugal democrático. “Alguns dos dirigentes deram uma certa volta e conseguiram enquadrar-se no sistema burguês que criticavam”, disse numa entrevista onde perpassava um ressabiamento doentio e onde se queixava de o olharem com “muito mau ar”…
Terceiro: por que foi este livro apresentado como uma “bomba editorial”? Disse-se que contar a história de um esquerdista que foi preso, fraquejou, se passou para a PIDE e por isso voltou a ser preso depois do 25 de Abril era “revelador”. Revelador de quê se no livro não só não se denunciam de forma convincente os métodos da PIDE (o autor confessa que não era capaz de odiar os seus torturadores) como não se faz qualquer revelação bombástica sobre o pós-25 de Abril, pois é conhecido que nas cadeias portuguesas havia em 1975 muito mais presos políticos do que a 24 de Abril de 1974.
De resto o percurso pessoal de Pinto de Sá é tão extravagante e incoerente que ele nunca poderia ser o autor indicado para escrever sobre aqueles esquerdistas que, mesmo defendendo ideias perigosas, acreditavam que lutavam pela liberdade e pelo povo. Para Pinto de Sá era sob a ameaça da tortura que se percebia que a revolução não levava a lado nenhum e se entrava em ruptura, explicação pueril e falsa já que para a maioria, entre os quais me incluo, a ruptura profunda e radical aconteceu quando se tomou consciência do que era mesmo a “revolução” e de como esta levaria sempre a outra ditadura. Esses percursos tem o autor dificuldade em entender, até porque ele próprio confessa que, se começou esquerdista e depois colaborou com a PIDE, isso não o impediu de ter uma “recaída” (!) no maoismo antes de andar pelas bandas do PCP até ter passado a votar socialista.
O que este livro conta é pois a história de uma abjecção em que o protagonista tenta vestir a pele de um herói injustiçado. E se nada acrescenta sobre o que já se sabia sobre os métodos da PIDE ou as prisões do COPCON, o que revela sobre os mecanismos perversos do esquerdismo é irrelevante ou marginal. Para além disso está mal escrito e mal editado, pelo que lê-lo é uma tortura. Poupem-se a isso os leitores. José Manuel Fernandes

Declaração de interesses: Fui esquerdista mas não estive mais do que meia dúzia de horas preso numa certa noite de Dezembro de 1973. Não posso, honestamente, dizer se conseguia ou não resistir à tortura, mas conservo muitos amigos que resistiram. Mudei de estrada porque entendi que defendia ideias absurdas, e garanto que tais rupturas nunca são fáceis. Não tenciono ocultar ou branquear qualquer episódio do meu passado, mas não aceito que se coloque no mesmo prato os que torturavam e os que, mesmo defendendo ideias erradas, se arriscavam a ser presos por causa disso. Ora como isso foi feito por Pinto de Sá e por alguns dos que aplaudiram o seu livro, apenas peço que saibam distinguir o que não pode ser confundido.

2 – Editora “Guerra e Paz” – Público ataca Conquistadores de Almas (16 de Agosto de 2006)

José Manuel Fernandes assina um violento artigo contra o livro de Pinto de Sá, “Conquistadores de Almas” publicado pela Guerra e Pa

Saiu no “Público”, no passado domingo, dia 13 de Agosto. O que mais surpreende é a veemência, a roçar por vezes o irracional, da prosa. No essencial, o artigo desqualifica Pinto de Sá enquanto autor, negando-lhe o direito, por “extravagante e incoerente”, a relatar a sua experiência, do mesmo modo que desqualifica editorialmente o livro, a que nega qualquer valor de revelação.

A Pinto de Sá cabe, e estamos certos de que ele o fará, responder ao ataque que lhe é dirigido. Nós, na Guerra e Paz, limitamo-nos a rejeitar o princípio de exclusão que subjaz à reacção de JMF e a reafirmar o carácter de extrema novidade do livro. O que consideramos abjecto é que, mesmo inconscientemente, se insinue o controle da publicação de livros ou que sobre pessoas paire a ameaça da ostracização.

Não conhecemos nenhum relato tão completo e genuíno sobre a militância maoísta do fim do marcelismo, sobre as torturas da PIDE e sobre as prisões arbitrárias do PREC. E estamos abertos à publicação de outros, seja qual for o ponto de vista ideológico que os inspire.

Não deixe de ler o artigo em http://www.publico.pt/ (e leia sempre o Público, claro). E sobretudo não deixe de ler “Conquistadores de Almas”, de Pinto de Sá, porventura o primeiro livro de um autor português capaz de dar aos seus leitores uma visão não idealizada da militância maoísta nas universidades portuguesas do começo dos anos 70.

Guerra e Paz Editores 16.08.06

3- Pinto de Sá – Resposta a José Manuel Fernandes sobre a abjecção em forma de livro (Público , 20 de Agosto de 2006)

Publicou o “Público” do passado domingo, sob o título de “A abjec­ção sob a forma de livro de memórias”, uma crítica ao livro “Con­quista­dores de Almas” de que sou autor. Dado que me são ali feitas diver­sas imputações pessoais, gostaria de apresentar os se­guintes esclarecimentos:

1 – José Manuel Fernandes (J.M.F.) acusa-me de não pretender no li­vro um “ajuste de contas comigo mesmo” nem “a exposição pública das fraquezas humanas que justificam tais comportamentos” (de cedência à tortura da PIDE), mas sim um ajuste de contas com os que me “des­prezaram” e, tendo abandonado os “desvarios de juventude”, ocupam hoje “lugares impor­tantes no Portugal democrático”, pelos quais nutri­rei um “ressabiamento do­entio”. Porém, para fundamentar estas acusa­ções J.M.F. invoca uma entrevista minha recente e não o próprio li­vro, o que faz com que em vez de crítica literária proceda assim a um irracional ataque pes­soal. Em primeiro lugar, J.M.F. tresleu a en­trevista: por um lado, quando nela mencionei “alguns que me despre­zavam”, estava a referir-me especificamente a militan­tes cujas de­núncias foram a causa da minha prisão pela PIDE e que sofreram depois um apaga­mento de memória, e por outro lado quando men­cionei os que “fize­ram uma volta e se adaptaram bastante bem ao regime que então comba­tiam” referia-me não aos anteriores, mas a outros que nunca foram presos pela PIDE. Em segundo lugar, J.M.F. não tem razão no “res­sa­biamento” que me atribui; orgu­lho-me, pelo contrá­rio, do sucesso conseguido pela minha geração e considero também ter um “lugar im­por­tante” no Portugal de­mocrático!

O livro visa de facto um ajuste de contas comigo mesmo e a exposi­ção de fraquezas hu­ma­nas, con­textualizando-as embora na época, no que constitui, até ao mo­mento, o primeiro e único testemunho publicado. Natural­mente, nem todos os demais envolvi­dos na histó­ria se sentirão con­fortáveis com estas memórias, em particular quando lhes subsistem sentimentos de culpa mal resol­vidos.

2 – Não consigo ver em que se baseia J.M.F. para me imputar a ideia “falsa e pueril” de que “era sob a ameaça da tortura que se percebia que a revolução não levava a lado nenhum e se entrava em ruptura”! Em lado algum do livro afirmo tal coisa ou algo com esse sentido. O que o li­vro descreve, com minúcia, são dois processos de crise em momen­tos diferentes: o primeiro resultante da tomada de cons­ciên­cia das flagrantes contradições entre a retórica da organização a que eu pertencia e a sua prática, que me despoletou uma crise de confiança na organização, nos finais de 1972 e, por corolário, na sua ca­paci­dade de realizar a revolução, e não uma crise de con­fiança na bon­dade da própria revolução! O segundo momento de crise ocorreu após alguns dias de tortura (e não apenas de ame­aça dela), em Maio de 1973, mas esta foi uma crise pessoal, de confronto soli­tário com o meu próprio destino e opção de vida, em­bora no con­texto de des­crença na organização de que já sofria. E depois, sim, EU fui “con­vencido” a retomar antigas convicções co­lonialistas, num cenário de coação rigorosamente descrito. Ainda bem que J.M.F. nunca teve de passar por tal prova!

3 – Sobre a tortura da PIDE e a colaboração prestada pelas suas ví­timas, J.M.F. considera que eu “não denuncio de forma convincente os mé­todos da PIDE” e que “nem todos os estudantes esquerdistas ce­deram e, sobretudo, poucos ou mesmo nenhum acrescentou à ce­dência a colabora­ção”. Não sou historiador e não contesto numeri­camente J.M.F., até por que também não existe ainda ne­nhum estudo pu­blicado que confirme ou desminta essas afirmações. Tal estudo defronta grandes obstáculos, mas gosta­ria de in­vocar o seguinte, sobre este tema: A) – To­dos os factos que narro no livro so­bre cola­bora­ções próprias e alheias são verificáveis documentalmente. B) – Por mais abjecta que possa pare­cer a sub­missão psicoló­gica aos tor­cionários que o meu livro teste­munha, tal regres­são in­fantilizante, com a as­sunção por torcio­nários de figuras pa­ter­nais, é o próprio objectivo central das técni­cas da tortura mo­derna, con­forme dou­trina, por exemplo, o co­nhe­cido “relatório Ku­bark”, compi­lado pela CIA em 1963 e de acesso desclassifi­cado em 1997. O facto de até hoje mais ninguém por cá ter contado “como foi”, não prova que o su­cesso destas técni­cas não te­nha sido comum. C) – Não afirmo no livro que todos os estudantes esquerdistas (maoístas) cederam, e tam­bém é certo que nem sempre a PIDE torturava, o que facilitou a cria­ção de alguns mitos. Só a título de exemplo, o próprio fundador do maoísmo português, que gozava da áurea de não ter “fa­lado” na sua primeira prisão pela PIDE quando ainda membro do PCP, explicou publicamente há pouco tempo que dessa vez não fora torturado. Por outro lado, a melhor prova de que a PIDE e a rejeição comunista da cedência à tortura destruíram os presos da extrema-esquerda, é que dos muitos ex-maoístas que são hoje figuras públicas mediáticas não há mais do que um ou dois que te­nham experimentado a tortura da PIDE. D) – A inexis­tência de teste­munhos sobre cola­bo­rações com a PIDE no con­texto prisi­o­nal tam­bém não prova que não te­nham existido. É um problema co­mum à história prisional de to­dos os regi­mes totali­tários e, por exemplo Anne Ap­ple­baum, na sua História do GULAG, tam­bém nota que não há tes­te­munhos de in­forma­do­res nas pri­sões estali­nistas, com a única ex­cepção de Solje­nit­sine, que narra no seu livro Arquipélago Gulag o seu recrutamento como tal. No en­tanto, Ap­plebaum cita fontes se­gundo as quais a polí­cia política so­viética teria, nos anos 20, 25% de in­forma­do­res entre os presos, cota que posteriormente terá des­cido para 10%…

4 – J.M.F afirma, na sua “declaração de interesses”, que “coloco no mesmo prato” os que torturavam e os que se arriscavam a ser presos por de­fenderem as suas ideias. Também aqui não vejo como tal afirmação possa ser extraída do livro! O que realmente re­sulta com­parável são as perse­guições, calúnias e torturas no tempo da PIDE com as per­seguições, calúnias, prisões arbitraria­s e preconização de exe­cuções sumárias no tempo do PREC! Eu passei por ambas as ex­peri­ências, como vítima, e embora J.M.F. consi­dere que “não faço qualquer revelação bombástica sobre o pós-25 de Abril”, não deixa de ser verdade que a narrativa que faço dessa experiência pessoal é original, no seu intimismo. E irrefutavelmente ho­nesta.

Compreendo, porém, que para alguns dos que nunca pas­sa­ram pela tortura da PIDE mas durante o PREC fo­ram per­segui­dores em “des­vario ju­venil”, a leitura deste livro possa ser “uma tortura”…

Pinto de Sá, Professor do Instituto Superior Técnico e consultor em engenharia electrotécnica.

4 – José Manuel Fernandes – Os equí­vocos de Pinto de Sá, ou como assumir o passado não implica legitimar o erro (Público, 20 de Agosto de 2006)

Devo dizer que comecei a ler este livro com interesse e curiosidade, até porque conheci muitos dos protagonistas e com alguns ainda hoje mantenho relações. Apesar de nunca ter conhecido José Pinto de Sá (sou uns anos mais novo, e nessa altura isso fazia toda a diferença, mesmo em meios tão claustrofóbicos como os da militância esquerdista), queria saber se nele se fazia o “retrato implacável do maoísmo”, como se anuncia na contracapa, e se era também “um retrato do fanatismo político e das fragilidades afectivas que lhe eram inerentes”, uma relação que para mim seria nova. Anunciava-se ainda que em Conquistadores de Almas se convocavam “muitas figuras que hoje conhecemos da vida política, do jornalismo e do mundo empresarial português”.
Contudo, conforme fui entrando no livro, comecei por me sentir desiludido, depois cansado e, por fim, chocado. Tudo se agravou ainda mais quando comecei a ver as entrevistas pelo autor, entrevistas em alguns aspectos mais reveladoras do que o próprio livro.
Comecemos pois por esclarecer as citações da entrevista. Nela Pinto de Sá não diz que foi desprezado, e por isso a frase não está entre aspas. Diz, sim, que “houve uma espécie de congelamento das relações afectivas e algumas pessoas que eu aí menciono, que são meus colegas no Técnico, olham-me mesmo com muito mau ar”. Se isto não revela o desprezo dos seus colegas, então não sei o que é desprezo. Mais adiante refere que “todos os que foram presos ficaram destruídos para a vida política”. Agora, porém, já não fala de “todos”, nem de terem simplesmente estado presos, preferindo ir por outro lado e escrevendo que “dos muitos ex-maoístas que são hoje figuras públicas mediáticas não há mais do que um ou dois que tenham experimentado a tortura da PIDE”. Bem diferente, como se vê, mas detalhes com que não interessa perder mais tempo. Passemos ao essencial.
Primeiro para perceber se o livro é mesmo um retrato implacável do maoísmo e do esquerdismo nos meios estudantis. Não é. O maoísmo era pior. Era mais fanático, mais intransigente, levava a excessos muito para além dos relatados por Pinto de Sá. Antes e depois do 25 de Abril. E criava uma mentalidade que permitia passar facilmente da luta política ao crime, como infelizmente sucedeu noutros países, onde aos anos “lunáticos” do pós-Maio de 1968 se sucederam anos “de chumbo” marcados pelo terrorismo.
Depois importa ver se no livro se reflecte com coerência sobre como se rompe com o mundo do extremismo. Pinto de Sá diz que tinha começado a perceber que aquelas ideias não levavam a revolução nenhuma antes de ser preso, mas não deu então qualquer passo. Só o daria na cadeia, depois das primeiras sessões de tortura, e não para encontrar outra forma de caminhar para a “revolução”, mas para passar a colaborar com a repressão. Ora, abandonar ideias absurdas que podiam, se os seus defensores tomassem o poder, tornar-se criminosas, não implica passar a colaborar com políticas que já eram criminosas, como as da antiga polícia política. Ora, foi exactamente isso que sucedeu com o autor de Conquistadores de Almas.
Claro que não foi o primeiro nem o último a quem tal sucedeu, mas a invocação da URSS estalinista é seguir por mau caminho, pois aquilo por que Pinto de Sá passou não é comparável com o que se sofria na Lubianka ou no Gulag. Ao contrário do que fica sugerido nas entrelinhas, a sua traição não era a regra, antes foi uma excepção, raríssima de resto. E mesmo o outro informador da PIDE que estava infiltrado entre os estudantes esquerdistas e que ele conheceu na prisão depois do 25 de Abril, para além de o identificar mal, “passou-se” para a polícia por motivos que nunca apurei mas que nada tiveram a ver com os seus, porventura ainda foram mais ignóbeis (e neste caso sei do que falo, pois o personagem era do grupo a que pertencia).
Por outro lado, o processo de ruptura intelectual com o extremismo está bem documentado em muitos testemunhos de várias épocas, mas não em Portugal, onde a obra mais importante e quase única é a escrita no início dos anos 1980 por João Carlos Espada e Pacheco Pereira, A Esquerda face ao Totalitarismo. Aí não se desculpam as ideias absurdas, antes se faz a sua crítica e se explica como se compreendeu que conduziam inevitavelmente ao desastre. Claro que houve outros percursos muito diferentes, uns assumidos abertamente, outros mais traumáticos, que incluíram “purgas” internas nas diferentes organizações, outros ainda levando a um desencanto tão irremediável que acabaram em suicídios. Nada disto encontramos em Conquistadores de Almas, antes sinais de uma relação complexa entre o autor e boa parte dos seus companheiros, que aqui e além acusa de só desejarem protagonismo ou de serem filhos de gente abastada e já oposicionista. Nesse mundo ele seria o outsider, só que esse mundo não era só como o descreve. Em contrapartida, não reflecte sobre o carácter muito particular do seu grupo, um dos mais minúsculos e isolados, sobre o porquê da sua evolução sectária, e fica pouco claro qual o seu papel na sombra de outros militantes que, por motivos indescortináveis, ora cita por nomes reconhecíveis, ora por nomes que só os iniciados são capazes de referenciar.
Outro ponto relevante é o de saber se, como anunciava a propaganda, o fanatismo político tinha fragilidades afectivas inerentes. A resposta óbvia é não. Pelo contrário: nesses meios, as paixões políticas andavam muitas vezes a par com intensas paixões afectivas e uma imensa capacidade de entrega. Mais: mesmo com diferenças de grupo para grupo, o sexo, ainda um tabu no Portugal da época, era encarado de forma muito mais próxima da actual (para o bem e para o mal, acrescente-se). Pinto de Sá é que era diferente e tinha problemas afectivos, que de resto não esconde no livro, porventura nalgumas das que são as passagens mais sinceras das suas memórias.
Finalmente, devo dizer que, ao contrário de muitos, não só conheço o que passou nas prisões do PREC (até por laços familiares a quem esteve preso por ser do MRPP), como não desculpo os métodos de então. Como não fui “perseguidor em desvario juvenil” – antes me criticavam por ser “conciliador”… – nem tenho problemas de memória mal resolvidos, a leitura deste livro só se tornou numa “tortura” quando entendi que aquilo que poderia ter sido um salutar ajuste de contas com sombras do passado se transformou num exercício de autojustificação, onde Pinto de Sá se apresenta como vítima e foge sempre a reconhecer que há tudo menos dignidade e honra no que fez.

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4 comments

  1. Gostaria de manifestar que estou ausente do pais desde 19 de Agosto e em local de muito dificil acesso a Internet, e sem acentos… mas que tenciono redigir e publicar onde puder uma resposta politica detalhada aos ataques pessoais de Jose Manuel Fernandes.
    Nos inicios de Setembro.

  2. José Manuel Fernandes

    Devo dizer que não pretendi fazer quaisquer ataques pessoais a Pinto de Sá, que não conheço, mas contestar do ponto de vista político a forma como lê a história. O tema é quase inesgotável, mas parece-me que não interessa a tanta gente como pensei. A extrema-esquerda era pequena e não serão muitos os que ainda seguem aqueles que a abandonaram. Para alguns, como o assessor de um ministro, ter sido maoista é como ter tido peste, dando-se a singularidade desse assessor ser muito amigo de um dos homens fortes do PS que foi maoista no mesmo grupo de Pinto de Sá, apesar de poucos saberem isso. Pinto de Sá contou a história da sua perspectiva, houve logo quem sobre o livro escrevesse que ser um jovem com ideias absurdas e ser um Pide era mais ou menos a mesma coisa, e houve até outro ex-maoista que num jornal resolveu falar de uns seus antigos camaradas sem recordar que ele andava com eles a distribuir os mesmos comunicados com retratos do Estaline. Estas coisas é que não podiam nem podem passar em claro. Veremos onde prossegue a polémica, se tiver nível para continuar. E, sobretudo, se quem passou pela tortura também acrescentar as suas experiências.

  3. Ainda longe e com acesso esporadico à net e às noticias, reitero a intenção de responder detalhadamente a JMF. Ou melhor, às suas afirmações sobre mim e sobre o que o livro contem que, como não lhes reconheço validade, considero serem ataques pessoais. No entanto, nessas resposta espero desenvolver também algns balanços que faço HOJE sobre todo o contexto da historia que narrei, e que não pretendeu ser mais do que se intitula: MEMORIAS. Memorias do que pensei, senti, e vivi na altura, e não reflexões de hoje sobre essas vivencias.
    Só como exemplo, e sobre um ponto glosado por JMF e Joffre Justino no seu blog: a minha supostamente especial inépcia sexual da altura. Fazendo umas contas, verifico que cerca de metade dos presos sofridos pelos CCRM-L também levavam vida de ascetas; que os que não a levavam, por ter namorada ou – em alguns muito raros – relações casuais abundantes, eram todos mais velhos e tinham disposto de alguns anos pós-liceu para amadurecerem e explorarem esses domínios; que o mesmo era verdade para os “associativos” da minha idade que não eram dos CCR, no Técnico; que talvez fosse diferente em Económicas, como afirma o Joffre, mas que Económicas tinha na altura 50% de estudantes demininas, enquanto o Técnico não teria mais do que 10%; que, por tudo isto, acho que a minha solidão sexual aos 18-20 anos era bastante comum entre os militantes do Técnico e não um caso especial…
    Na verdade, a “fragilidade afectiva” que a editora achou ser de sublinhar no que me respeita, tinha muito mais a ver com relações filiais que com sexuais, como creio ser evidente!…

  4. Já agora, creio saber quem é o assessor que JMF menciona. E ainda hoje estou para perceber por que é que esse ministro sempre escondeu ter sido militante dessa organização…
    E uma curiosidade: o Governo de Guterres tinha 3 antigos militantes da referida organização m-l. Praticamente um comité!… 🙂

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