JÚLIA COUTINHO – NO CENTENÁRIO DE PÁVEL (1908-2008)

zhv9vbo3No centenário de «Pável» (1908-2008)

(Por gentileza de Júlia Coutinho reproduzimos aqui o seu texto sobre Pável originalmente publicado em As Causas da Júlia)

Francisco Paula de Oliveira Junior nasceu em Lisboa, freguesia de Santa Catarina, em 29 de Outubro de 1908. Do pai herda o nome e os ideais anarquistas que o levam a ingressar na Federação das Juventudes Sindicalistas, que abandona após a revolta de 7 de Fevereiro de 1927, conforme nos refere Emidio Santana nas suas Memórias. Tudo leva a crer que se tenha de imediato aproximado do Partido Comunista Português onde, nos anos subsequentes, vai liderar e organizar as Juventudes Comunistas, tendo fundado O Jovem e o Juventude Vermelha. Também sua mãe, Maria Adelaide, vem a ser uma dedicada millitante comunista. A um personagem central de A Mãe, de Gorki, irá buscar o pseudónimo que adopta: «Pavel».
Operário no Arsenal de Marinha, a polícia acreditava que a Pavel se devia muito do impulso organizativo dos arsenalistas no seu Sindicato, um dos raros de então a fugir à orbita anarquista. Simultaneamente, como todos os operários navais, estuda à noite na Escola Industrial.
Breve passa à clandestinidade, vindo a ser um dos principais dirigentes das Juventudes e, depois, do PCP, a cujo secretariado vai pertencer, com José de Sousa e Bento Gonçalves tendo, após a prisão e deportação deste para o Tarrafal, ascendido a dirigente principal. Fez várias viagens à URSS, tendo aí permanecido como delegado do PCP junto da Internacional Comunista, sob o nome de Fernando Queiroz.
Era um homem de formação humanista, muito inteligente e bastante culto, com grande facilidade de aprendizagem, conforme testemunhos coevos. Quando foi preso pela primeira vez, em 1932, devido às lesões pulmonares de que sofria, colocaram-no num sanatório. Aí, sabendo que em breve seguiria para junto da IC na URSS, aproveitou para estudar, sózinho, a língua russa. E conseguiu. Falava russo, espanhol e francês. Em 1935 intervém, com Bento Gonçalves, como delegado do PCP ao VII Congresso da IC, realizado na Casa dos Sindicatos em Moscovo. BG falou em português enquanto Pável falou em francês, durante 24 minutos. (JPP,vol.II,p.125) Na URSS tratou da sua saúde, refez a vida e teve um filho a quem chamou Pavel Queiroz, os dois pseudonimos que adoptara.
No regresso a Portugal e apos um ano de intensa actividade partidária é preso em 10 de Janeiro de 1938 na sua casa clandestina – Rua da Beneficência 180-2º/3º – pelo tenebroso José Gonçalves, na altura ainda Agente de Terceira, da Seccção de Defesa Política e Social, da PVDE. Resiste à polícia com troca de tiros, e também aos bombeiros que acorreram devido ao incêndio que propagara aos armários da casa, na tentativa de ganhar tempo e destruir o máximo de documentação partidária, uma vez que ali funcionava a redacção do Avante, o que conseguiu.
Encerrado no Aljube consegue passar para a enfermaria. Alicia então um jovem enfermeiro – Augusto Rodrigues Pinto – que havia pertencido às Juventudes Comunistas que o ajuda num plano de fuga na condição de poder seguir para a União Soviética. Apoiada pelo partido, a espectacular evasão da enfermaria do Aljube ocorre no dia 23 de Maio de 1938. Leva consigo o enfermeiro e um outro jovem comunista preso, em estado de tuberculose extrema, António Gomes Pereira, o «Casanova».
Lamentavelmente viviam-se momentos turbulentos no xadrez político internacional com a Guerra Civil de Espanha, com o nazismo e o fascismo em ascensão, com as purgas estalinistas e, também entre nós o ambiente era de guerrilha conspirativa intensa: culminando um longo processo de desconfianças e intrigas, os comunistas portugueses acabariam por ser expulsos da IC ficando desligados até finais dos anos quarenta. Pável sabe que só junto da IC a situação terá alguma reversibilidade e segue com os seus companheiros para Paris, no intuito de poder regressar a Moscovo onde tinha mulher e filho. Foi mal acolhido. A IC desconfiou da sua fuga e os camaradas portugueses abandonaram-no. Os processos estalinistas na IC haviam feito mais uma vítima.
Depois de meses miseráveis em Paris, durante os quais o jovem António Gomes Pereira piora, é internado e vem a falecer, Pável, com o apoio do PCE assume a identidade de António Rodriguez Diaz, um revolucionário morto na Guerra Civil de Espanha e segue para o México.
Aí convive com as elites progressistas e artísticas que o acolhem. Lança-se no estudo da sua mais recente paixão – a Arte – e vem a tornar-se num grande escritor, jornalista, crítico de arte, mais tarde professor e, sobretudo, no maior especialista mundial do Muralismo Mexicano. O seu livro «El Hombre en Llamas», editado na Alemanha e só depois no México, recebeu o prémio do melhor livro de arte na Feira do Livro de Francfort, em 1968.
Após o 25 de Abril António Rodriguez foi convidado, através da Secretaria de Estado da Cultura, (David Mourão-Ferreira) a visitar Portugal, tendo realizado três conferências sobre arte na Fundação Calouste Gulbenkian. Voltou ainda nos anos oitenta mas, para além de alguns apontamentos jornalisticos, a sua passagem foi discreta.
Manteve-se fiel aos valores e ideais da juventude.
Morreu em 15 de Agosto de 1993.
Portugal desconhece-o.
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