MIGUEL PORTAS – SOBRE A BIOGRAFIA DE CUNHAL

 
Nos que fizeram a estrada da esquerda para o centro e a direita, Pacheco Pereira é, a vários títulos, a referência mais sólida. Porque, para lá da espuma dos dias, o seu objecto de trabalho é a história do "lado" que um dia deixou. E nesse trabalho tem o mérito de não ajustar contas. Investiga, indaga, colecciona, articula, veste a pele e ensaia respostas às interrogações que o tempo coloca. A sua biografia de Álvaro Cunhal é um notabilíssimo documento. Não é "a" história do PCP. Mas é, seguramente, a melhor história que sobre o PCP até agora se fez. Pacheco Pereira historiador não merecia a triste nota que a Secção de Imprensa do PCP recentemente lhe dedicou, acusando-o de "uma pretensa investigação cujo objectivo é inocentar a PIDE e criminalizar o PCP". Esta e outras barbaridades sobre o "branqueamento do fascismo" constam dessa nota digna dos anos 50 e que prova, à saciedade, como o estalinismo renasce na Soeiro Pereira Gomes, mal se interroguem verdades sagradas, ou se investigue sobre os aspectos menos honrosos que a história de qualquer corpo humano inevitavelmente comporta.

Se em vez de notas como esta, o PCP abrisse os seus arquivos à investigação dos historiadores, faria bem melhor. Porque os comunistas portugueses não têm que se envergonhar da sua história. Partidos com histórias bem mais complexas, do ponto de vista do equilíbrio entre sombras e luzes, abriram os seus arquivos. O último a fazê-lo, bem recentemente, foi o Partido Comunista Francês.

(Diário de Notícias, 17/12/2005)

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