LUDGERO PINTO BASTO (1909-2005)

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Raimundo Narciso, “Morreu Ludgero Pinto Basto”, Memórias, 25/5/2005

António Melo, “Morreu Ludgero Pinto Basto, comunista e antiestalinista”, Público, 25/5/2005, transcrito a seguir:

Dirigente nos anos 30, é como militante legal que presta apoio médico ao aparelho clandestino do PCP

O médico Ludgero Pinto Basto foi ontem a enterrar, em Lisboa, depois de uma vida inteiramente dedicada aos ideais de solidariedade humana e igualdade social. Cultivou-os na maçonaria, onde se iniciou em 1928, e no Partido Comunista Português de que foi militante e dirigente, a partir de 1931. Tinha 96 anos e encontrava-se enfermo há alguns meses. Em Abril do ano passado foi condecorado com a Grande Ordem da Liberdade.
Ludgero Pinto Basto nasceu a 13 de Janeiro de 1909 na Lixa (Felgueiras). Filho de uma professora primária e de um comerciante bem sucedido, “não tinha jeito nem vontade” para o negócio de fazendas e riscado. A isso o destinava a mãe, quando o pai morreu, vítima de uma úlcera gástrica, e ela teve de se ocupar, além da escola, com o balcão da loja. A jovem viúva ficara com três filhos para cuidar. Ludgero tinha cinco anos, Anibal três e o mais novo, Êrnani, nem ano e meio atingira quando morreu Eugénio Ferreira Basto, o pai.
Ludgero não sentia qualquer vocação para aquele negócio. Durou nove anos a prova de força com a mãe. Tinha 17 anos quando a mãe lhe disse: “Vais estudar”.
Em três anos fez o ensino secundário, no Colégio Almeida Garrett, no Porto. Com 19 anos entrou para os preparatórios de Medicina e no ano seguinte, rumou a Lisboa, onde considerava estar a “melhor escola médica do país”.
Além de aprender a salvar a doença individual, abraçou também a causa da revolução social; e em 1931 tornou-se membro do PCP. Foi na semi-clandestinidade que, em 1935, concluiu o curso. Conseguiu iludir a vigilância da polícia política salazarista e abriu um consultório na zona da Penha de França, em Lisboa, recorrendo a um apelido da mãe que pouco utilizava: Ferreira Pinto. Foram muitos os militantes clandestinos comunistas que recorreram aos seus cuidados, que nunca recusou, sem cuidar dos riscos.
De Setembro de 1938 a 1 de Dezembro de 1939 assegurou o funcionamento do secretariado político comunista, com Francisco Miguel e Álvaro Cunhal, que apoiou sempre, sem esconder a crítica e sem quebra de amizade. Nesse 1 de Dezembro foi preso em Benfica (Lisboa) quando, precisamente com Francisco Miguel, ia encontrar-se com outros elementos do comité central. Foi condenado a 20 meses de prisão, mas acabou por ficar quase quatro anos nos presídios do regime, dos quais dois em Angra do Heroísmo, de onde regressou em 1943, para Caxias e só então foi libertado.
Passou a viver na legalidade e retomou a actividade clínica. Especializou-se em endocronologia, disciplina clínica de que foi percursor em Portugal. A evolução política na União Soviética, sob a direcção de Estaline, sobretudo os “processos de Moscovo”, onde os “companheiros de Lenine”, acusados de contra-revolucionários, mereceu a sua crítica interna no PCP, mas sem pôr em causa a sua fidelidade à linha partidária.
Por isso enfatizava a reabilitação política de Bukarine (executado em 1938), ainda durante a existência da União Soviética, dando pleno valor ao que deixara escrito no seu testamento clandestino, só revelado muitas décadas mais tarde pela viúva: “Sabei camaradas, que sob a bandeira que levais, em marcha triunfal para o comunismo, há também uma gota do meu sangue!”
Nos primeiros anos de estudante de Medicina, Ludgero passou pela maçonaria e pertenceu à loja Rebeldia, em Coimbra, de que fez parte outro médico, também resistente antifascista, mas do Partido Socialista, Fernando Vale. Foi desta loja que saíram os líderes da greve académica de 1931, contra a ditadura militar saída do 28 de Maio de 1926. Mas a sua permanência no Grande Oriente Lusitano Unido foi breve, pois os seus rituais pareceram-lhe fora do seu tempo. Foi no PCP que se realizou politicamente.
Leonardo Coimbra, seu conterrâneo, que nesse tempo ainda não se tornara “praticamente beato”, foi quem o iniciou nos caminhos do “materialismo dialéctico” e lhe deu conta da revolução bolchevique, que desde 1917 abalava o mundo. Das lições desse tempo conservou Ludgero uma animosidade política permanente contra Trotsky. Em contrapartida, Lénine e Bukarine entusiasmavam-no. Se a crítica que fez do estalinismo foi tímida, isso deveu-se unicamente ao rigor político do tempo, que não tolerava que se beliscasse o “pai dos povos”, mas sempre acusou Estaline de ter pervertido o projecto de Lenine.
Esteve na guerra civil de Espanha, onde se encontrou com Togliatti, líder comunista italiano, de pequena figura, mas que ficou a admirar pela sua determinação.
A deliquescência do regime soviético só o surpreendeu por tardia, porque tinha fundadas dúvidas sobre aquele “socialismo real”. Por isso discordava que se falasse de “utopia comunista” para caracterizar o século XX. Considerou, até ao fim, que um tal projecto de sociedade permanecia válido, convencido de que “todas as misérias do capitalismo se mantinham e até se exacerbaram em certos sítios”. Preocupação séria para si era ver a tendência crescente para um individualismo egoísta e “as pessoas menos interessadas na evolução da sociedade do que no princípio do século XX”.

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